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Seguir tutorial, não é ensinar computação.

Seguir tutorial, não é ensinar computação.

250218
computação, educação
3–4 minutos

Esse é o maior dos cuidados que tomo diariamente no meu trabalho. Projetos em computação precisa incentivar a resolução de problemas (diversos) com técnicas computacionais. Veja bem, tem uma diferença aqui, não estamos ensinando a técnica pela técnica, estamos ensinando a usar a técnica para resolver um problema que tenho, que o estudante encontra no seu território, que a sociedade tem.

Esse é o ponto da educação em tecnologia, não deveria ser sobre ensinar a técnica, isso é exatamente aquele argumento “A IA pode ensinar isso.”

Não, ela não pode fazer meu trabalho melhor do que eu!

Devemos parar de reduzir o ensino de computação somente a isso.

Se ensinar computação fosse somente seguir um tutorial, então qualquer um que assiste a um vídeo ou copia um código já teria aprendido. Mas, por que será que tanta gente não consegue resolver problemas complexos computacionais? Temos um monte por aí! Só jogar numa IA e ela resolve, não é?

O aprendizado acontece quando há espaço para experimentação, erro, adaptação e, principalmente, para conectar o conhecimento técnico à realidade do estudante.

Fico meio triste de ter que falar isso ainda em 2025.

Quando alguém me fala de substituir professor por uma IA lembro daquele meme: “Eu não sou má, mas fico pensando o que uma pessoa má faria.” Por que em que realidade essa pessoa está? Quantas salas de aula já entrou? Para quantas pessoas essa pessoa já lecionou algo na vida?

Ok, OK. Existe muita coisa que a educação deve mudar. Mas essas pessoas realmente acham que colocar uma máquina para fazer é a melhor solução?

Amigo, a gente não tem internet de fácil acesso a todo o território ainda. 2025!

Segundo dados, 29% das escolas estaduais e municipais possuem dispositivos como computadores, notebooks ou tablets. Sendo 1 dispositivo para cada 10 estudantes. Somente 3.640 escolas das 32.379 escolas monitoradas cumprem a meta de velocidade de conexão estipulada pela Estratégia Nacional de Escolas Conectadas que recomenda pelo menos 1Mbps por aluno.

Fonte: CGI.br

Ta, sua IA te ajuda a fazer alguma coisa. Mas aí achar que ela consegue tomar decisão, expressar a amorosidade necessária que uma sala de aula necessita? Não é possível né, que eu precise falar o óbvio.

Educação é sobre mediação, não sobre entrega de informação (estamos nessa discussão a quantos anos? Décadas?).

Educação exige um papel ativo do estudante, e um estudo da OCDE mostra o quanto essa atitude proativa impacta o aprendizado. Menos da metade dos estudantes nos países da OCDE tenta conectar o que aprende agora com o que já aprendeu antes na escola. Isso significa que muitos estão somente consumindo informação sem fazer conexões — e sabemos que sem isso, o aprendizado não se fixa. Como um assistente, um tutorial consegue suprir esse gap?

Se queremos um ensino de computação significativo, ele precisa ser sobre pensamento computacional, sobre resolver problemas reais, sobre interação humana. O professor é peça-chave nisso. Uma IA pode gerar código, mas não pode perceber a frustração no olhar de um estudante, nem incentivá-lo a pensar além do óbvio.

No fim, o que estamos discutindo aqui é o que queremos para a educação: formar estudantes que só executam comandos ou que realmente pensam computacionalmente?

Por isso, reduzir o ensino de computação a “seguir um tutorial” não só enfraquece a formação dos estudantes, como também alimenta a ilusão de que um professor pode ser substituído por uma IA. Ensinar computação é sobre formar pensadores computacionais, não operadores de código.

Para concluir, lembrei aqui que a série “The Bear” representa o papel do educador em muitos momentos. Não é só sobre técnica, não é só sobre paixão, é sobre paixão e técnica aplicados em um propósito. Que propósito tem de seguir o tutorial? Que propósito pode ter uma IA no lugar de um professor?

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femascheti
Oi! Eu sou a Fernanda, educadora, pesquisadora e entusiasta de tudo que envolve computação. Busco conexões entre computação, justiça social e uma educação mais significativa. Compartilho ideias que me inquietam, projetos em que estou mergulhada e reflexões sobre como a tecnologia molda (ou desorganiza) a vida. Entre um parágrafo e outro, você pode esbarrar em temas como IA na educação, política pública, o trabalho hoje e no futuro ou divagações sobre o que é possível imaginar quando pensamos fora da caixa. Este espaço é minha tentativa de documentar o que aprendo, o que questiono e o que acredito que ainda podemos construir. Penso falando, falo de muita coisa de forma desordenada. As vezes faz sentido, as vezes não. Esse espaço é uma tentativa de organizar esse caos. Os emojis sou eu mesma que coloco, juro de dedinho que não é IA 🫣

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