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Como escrever objetivos de aprendizagem

Como escrever objetivos de aprendizagem

251020
educação
4–6 minutos

Escrever bons objetivos de aprendizagem é uma das habilidades mais importantes para educadores que desejam planejar experiências educacionais transformadoras. Não se trata de listar conteúdos a serem cobertos, mas de definir o que queremos que nossos alunos e alunas consigam entender e fazer ao final do processo.

Por que isso importa?

Objetivos claros funcionam como bússolas. Eles mantêm o foco no essencial e evitam que o ensino se perca em tarefas que apenas “preenchem tempo”. Quando sabemos onde queremos chegar, conseguimos escolher caminhos mais inteligentes e coerentes. E, de quebra, a avaliação deixa de ser um exercício burocrático para se tornar uma leitura autêntica da aprendizagem.

Comece pelo fim: o design reverso

Uma das abordagens mais eficazes para criar objetivos é o Design Reverso ou Planejamento Reverso (Backward Design), que inverte a lógica tradicional de planejamento. Em vez de começar pelas atividades, começamos pelos resultados desejados:

  1. Identifique os resultados desejados: Defina primeiro os entendimentos profundos, as questões essenciais e os conhecimentos-chave que seus alunos devem adquirir.
  2. Determine as evidências aceitáveis para cada resultado: Decida como os alunos demonstrarão sua compreensão através de tarefas autênticas que exijam aplicação real do conhecimento.
  3. Planeje as atividades de aprendizagem: Só então desenhe as experiências que equiparão os alunos para o desempenho bem-sucedido.

Vá além da memorização: foque em competências

Objetivos verdadeiramente eficazes não se limitam à memorização de fatos. Eles desenvolvem a habilidade de agir em situações complexas e realistas. Isso significa que seus alunos devem ser capazes de:

  • Mobilizar recursos diversos: articular conhecimentos conceituais, procedimentais e atitudinais para resolver problemas reais.
  • Transferir conhecimentos: aplicar o que aprenderam em contextos novos e variados.
  • Construir, não só receber: desenvolver competências através do exercício em situações desafiadoras.

Lembre-se: conhecimentos factuais e habilidades técnicas são recursos necessários, mas não o fim último do aprendizado. O objetivo é que os alunos saibam quando, onde e como usar esses recursos.

Busque compreensões duradouras

Os melhores objetivos focam em compreensões duradouras, aquelas grandes ideias que permanecem com os alunos anos depois da experiência educacional. Para identificá-los, pergunte-se:

  • O que quero que meus alunos ainda saibam e possam fazer daqui a cinco anos?
  • Que compreensões são transferíveis para outras situações e contextos?
  • Quais são as inferências importantes que vão além dos fatos isolados?

Utilize questões essenciais

Acompanhe seus objetivos com Perguntas Essenciais que provocam investigação e pensamento profundo:

  • Não podem ser respondidas com uma única frase
  • Recorrem ao longo do currículo, promovendo conexões conceituais
  • Desafiam os alunos a considerar alternativas e justificar suas respostas

Exemplos: “O que torna uma fonte confiável?”, “Como os sistemas se autorregulam?”, “De que maneira a forma influencia a função?”

Como formular: escreva sentenças completas

Ao escrever seus objetivos, evite tópicos vagos e busque sentenças proposicionais completas:

❌ Evite: “Compreensão do sistema solar”

✅ Prefira: “Compreender que os movimentos dos corpos celestes seguem padrões previsíveis regidos por forças gravitacionais, o que permite prever fenômenos como eclipses e estações do ano.”

A diferença? A segunda versão especifica uma inferência importante que requer compreensão profunda, não só memorização de fatos.

A Taxonomia de Bloom: classificando a complexidade

A Taxonomia de Bloom é uma ferramenta fundamental para garantir que seus objetivos vão além da simples memorização. Ela classifica seis níveis cognitivos, do mais simples ao mais complexo:

1. Conhecimento: Recordar fatos e informações
2. Compreensão: Explicar ideias ou conceitos
3. Aplicação: Usar informação em novas situações
4. Análise: Estabelecer conexões entre ideias
5. Síntese: Criar algo novo a partir do conhecimento
6. Avaliação: Justificar decisões ou posições

O poder da taxonomia está em nos lembrar que objetivos eficazes focam nos níveis superiores — aqueles que exigem pensamento crítico, transferência e aplicação autêntica do conhecimento.

O que realmente significa “compreender”?

A palavra “entender” é vaga. Bloom e seus colegas nos desafiaram a definir o que o aluno precisa fazer para demonstrar compreensão real. A resposta? Performance observável.

Para avaliar aplicação, por exemplo, você deve apresentar uma tarefa nova (não familiar) que exija que o aluno transfira o que aprendeu. Não basta repetir um exercício idêntico ao praticado em aula — isso é somente memorização disfarçada.

Os seis aspectos da compreensão

Para garantir que seus objetivos promovam compreensão genuína, considere se eles permitem que os alunos demonstrem:

1. Explicação: Fornecer teorias e justificativas para explicar o “porquê”

2. Interpretação: Traduzir ideias e mostrar seu significado — o “e daí?”

3. Aplicação: Usar conhecimento de forma flexível em contextos novos

4. Perspectiva: Reconhecer pressupostos e limites de uma ideia

5. Empatia: Valorizar pontos de vista diferentes, mesmo os que parecem estranhos

6. Autoconhecimento: Demonstrar consciência dos próprios preconceitos e limites

Mantenha a flexibilidade

Bons objetivos são pontos de partida, não camisas de força. Eles devem:

  • Permitir ajustes conforme as necessidades dos alunos
  • Surgir das capacidades e interesses reais do grupo
  • Considerar os recursos e desafios da situação específica

Nosso papel como educador é direcionar a capacidade de crescimento dos alunos, partindo de onde eles estão para ampliar suas possibilidades de ação.

Colocando em prática

Ao escrever seus próximos objetivos de aprendizagem:

  1. Identifique as grandes ideias transferíveis do seu conteúdo
  2. Classifique pela Taxonomia de Bloom
  3. Formule como sentenças completas que expressem inferências importantes
  4. Crie questões essenciais que provoquem investigação contínua
  5. Defina desempenhos observáveis: como saberá que houve compreensão?
  6. Inclua diferentes tipos: entendimentos duradouros + habilidades + competências
  7. Verifique transferência: funciona em contextos novos?
  8. Mantenha flexibilidade para ajustar conforme necessário

Lembre-se: objetivos bem escritos são investimentos que retornam em aprendizagens mais profundas, significativas e duradouras. Vale a pena dedicar tempo e reflexão a essa etapa fundamental do planejamento educacional.

Referências

> SILVA, Gabriele Bonotto; FELICETTI, Vera Lucia. Habilidades e competências na prática docente: perspectivas a partir de situações-problema. Educação Por Escrito, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 17–29, jan./jun. 2014. ISSN 2179-8435.

> WIGGINS, Grant P.; MCTIGHE, Jay. Understanding by design. Expanded 2nd ed. Alexandria, VA: Association for Supervision and Curriculum Development, 2005.

VOCÊ SABIA?

Hoje, 20 de outubro, é Dia Internacional do Bicho-Preguiça, foi isso que o Bing Wallpaper me disse. Amo animais e decidi compartilhar essa imagem do National Geographic contigo no início do post. Quer ver ela completa? Aqui! Ela é do Christian Ziegler.

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femascheti
Oi! Eu sou a Fernanda, educadora, pesquisadora e entusiasta de tudo que envolve computação. Busco conexões entre computação, justiça social e uma educação mais significativa. Compartilho ideias que me inquietam, projetos em que estou mergulhada e reflexões sobre como a tecnologia molda (ou desorganiza) a vida. Entre um parágrafo e outro, você pode esbarrar em temas como IA na educação, política pública, o trabalho hoje e no futuro ou divagações sobre o que é possível imaginar quando pensamos fora da caixa. Este espaço é minha tentativa de documentar o que aprendo, o que questiono e o que acredito que ainda podemos construir. Penso falando, falo de muita coisa de forma desordenada. As vezes faz sentido, as vezes não. Esse espaço é uma tentativa de organizar esse caos. Os emojis sou eu mesma que coloco, juro de dedinho que não é IA 🫣

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