Escrever bons objetivos de aprendizagem é uma das habilidades mais importantes para educadores que desejam planejar experiências educacionais transformadoras. Não se trata de listar conteúdos a serem cobertos, mas de definir o que queremos que nossos alunos e alunas consigam entender e fazer ao final do processo.
Por que isso importa?
Objetivos claros funcionam como bússolas. Eles mantêm o foco no essencial e evitam que o ensino se perca em tarefas que apenas “preenchem tempo”. Quando sabemos onde queremos chegar, conseguimos escolher caminhos mais inteligentes e coerentes. E, de quebra, a avaliação deixa de ser um exercício burocrático para se tornar uma leitura autêntica da aprendizagem.
Comece pelo fim: o design reverso
Uma das abordagens mais eficazes para criar objetivos é o Design Reverso ou Planejamento Reverso (Backward Design), que inverte a lógica tradicional de planejamento. Em vez de começar pelas atividades, começamos pelos resultados desejados:
- Identifique os resultados desejados: Defina primeiro os entendimentos profundos, as questões essenciais e os conhecimentos-chave que seus alunos devem adquirir.
- Determine as evidências aceitáveis para cada resultado: Decida como os alunos demonstrarão sua compreensão através de tarefas autênticas que exijam aplicação real do conhecimento.
- Planeje as atividades de aprendizagem: Só então desenhe as experiências que equiparão os alunos para o desempenho bem-sucedido.
Vá além da memorização: foque em competências
Objetivos verdadeiramente eficazes não se limitam à memorização de fatos. Eles desenvolvem a habilidade de agir em situações complexas e realistas. Isso significa que seus alunos devem ser capazes de:
- Mobilizar recursos diversos: articular conhecimentos conceituais, procedimentais e atitudinais para resolver problemas reais.
- Transferir conhecimentos: aplicar o que aprenderam em contextos novos e variados.
- Construir, não só receber: desenvolver competências através do exercício em situações desafiadoras.
Lembre-se: conhecimentos factuais e habilidades técnicas são recursos necessários, mas não o fim último do aprendizado. O objetivo é que os alunos saibam quando, onde e como usar esses recursos.
Busque compreensões duradouras
Os melhores objetivos focam em compreensões duradouras, aquelas grandes ideias que permanecem com os alunos anos depois da experiência educacional. Para identificá-los, pergunte-se:
- O que quero que meus alunos ainda saibam e possam fazer daqui a cinco anos?
- Que compreensões são transferíveis para outras situações e contextos?
- Quais são as inferências importantes que vão além dos fatos isolados?
Utilize questões essenciais
Acompanhe seus objetivos com Perguntas Essenciais que provocam investigação e pensamento profundo:
- Não podem ser respondidas com uma única frase
- Recorrem ao longo do currículo, promovendo conexões conceituais
- Desafiam os alunos a considerar alternativas e justificar suas respostas
Exemplos: “O que torna uma fonte confiável?”, “Como os sistemas se autorregulam?”, “De que maneira a forma influencia a função?”
Como formular: escreva sentenças completas
Ao escrever seus objetivos, evite tópicos vagos e busque sentenças proposicionais completas:
❌ Evite: “Compreensão do sistema solar”
✅ Prefira: “Compreender que os movimentos dos corpos celestes seguem padrões previsíveis regidos por forças gravitacionais, o que permite prever fenômenos como eclipses e estações do ano.”
A diferença? A segunda versão especifica uma inferência importante que requer compreensão profunda, não só memorização de fatos.
A Taxonomia de Bloom: classificando a complexidade
A Taxonomia de Bloom é uma ferramenta fundamental para garantir que seus objetivos vão além da simples memorização. Ela classifica seis níveis cognitivos, do mais simples ao mais complexo:
1. Conhecimento: Recordar fatos e informações
2. Compreensão: Explicar ideias ou conceitos
3. Aplicação: Usar informação em novas situações
4. Análise: Estabelecer conexões entre ideias
5. Síntese: Criar algo novo a partir do conhecimento
6. Avaliação: Justificar decisões ou posições
O poder da taxonomia está em nos lembrar que objetivos eficazes focam nos níveis superiores — aqueles que exigem pensamento crítico, transferência e aplicação autêntica do conhecimento.
O que realmente significa “compreender”?
A palavra “entender” é vaga. Bloom e seus colegas nos desafiaram a definir o que o aluno precisa fazer para demonstrar compreensão real. A resposta? Performance observável.
Para avaliar aplicação, por exemplo, você deve apresentar uma tarefa nova (não familiar) que exija que o aluno transfira o que aprendeu. Não basta repetir um exercício idêntico ao praticado em aula — isso é somente memorização disfarçada.
Os seis aspectos da compreensão
Para garantir que seus objetivos promovam compreensão genuína, considere se eles permitem que os alunos demonstrem:
1. Explicação: Fornecer teorias e justificativas para explicar o “porquê”
2. Interpretação: Traduzir ideias e mostrar seu significado — o “e daí?”
3. Aplicação: Usar conhecimento de forma flexível em contextos novos
4. Perspectiva: Reconhecer pressupostos e limites de uma ideia
5. Empatia: Valorizar pontos de vista diferentes, mesmo os que parecem estranhos
6. Autoconhecimento: Demonstrar consciência dos próprios preconceitos e limites
Mantenha a flexibilidade
Bons objetivos são pontos de partida, não camisas de força. Eles devem:
- Permitir ajustes conforme as necessidades dos alunos
- Surgir das capacidades e interesses reais do grupo
- Considerar os recursos e desafios da situação específica
Nosso papel como educador é direcionar a capacidade de crescimento dos alunos, partindo de onde eles estão para ampliar suas possibilidades de ação.
Colocando em prática
Ao escrever seus próximos objetivos de aprendizagem:
- Identifique as grandes ideias transferíveis do seu conteúdo
- Classifique pela Taxonomia de Bloom
- Formule como sentenças completas que expressem inferências importantes
- Crie questões essenciais que provoquem investigação contínua
- Defina desempenhos observáveis: como saberá que houve compreensão?
- Inclua diferentes tipos: entendimentos duradouros + habilidades + competências
- Verifique transferência: funciona em contextos novos?
- Mantenha flexibilidade para ajustar conforme necessário
Lembre-se: objetivos bem escritos são investimentos que retornam em aprendizagens mais profundas, significativas e duradouras. Vale a pena dedicar tempo e reflexão a essa etapa fundamental do planejamento educacional.
Referências
> SILVA, Gabriele Bonotto; FELICETTI, Vera Lucia. Habilidades e competências na prática docente: perspectivas a partir de situações-problema. Educação Por Escrito, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 17–29, jan./jun. 2014. ISSN 2179-8435.
> WIGGINS, Grant P.; MCTIGHE, Jay. Understanding by design. Expanded 2nd ed. Alexandria, VA: Association for Supervision and Curriculum Development, 2005.
VOCÊ SABIA?
Hoje, 20 de outubro, é Dia Internacional do Bicho-Preguiça, foi isso que o Bing Wallpaper me disse. Amo animais e decidi compartilhar essa imagem do National Geographic contigo no início do post. Quer ver ela completa? Aqui! Ela é do Christian Ziegler.
