Estou lendo o livro Educação e emancipação, do Theodor Adorno. É uma coletânea de textos. E pensei em trazer aqui uma reflexão a partir de um deles, intitulado Televisão e formação.
O texto é uma conversa entre o Adorno e o professor Hellmut Becker.
E eu fico pensando que toda vez que surge uma tecnologia nova, a gente repete mais ou menos o mesmo gesto: primeiro ignora, depois demoniza, depois naturaliza. E só muito tarde resolve ensinar.
No texto sobre televisão, o Adorno e o Becker estão falando de outra coisa, mas ao mesmo tempo estão falando exatamente disso. Eles não dizem que a televisão é má em si. O que eles apontam — e isso me chama muito a atenção — é o risco de uma geração começar a formar imagens do mundo antes de viver o mundo.
Vou ler o trecho que motivou essa conversa:
Becker — Posso sugerir uma versão bem direta da questão? Penso que no fundo existe o perigo de os jovens procurarem imaginar o amor, por exemplo, tal como ele é apresentado na tevê, isto é, assumam para relações humanas muito diretas representações estereotipadas antes que eles mesmos as tenham vivido. E que em seu próprio desenvolvimento procedam fixados em representações estereotipadas.
Quando o Becker fala do amor aprendido pela televisão, o problema não é o amor. É o modelo. É o fato de alguém chegar à própria experiência já ocupado por imagens prontas, por roteiros prévios, por expectativas que não nasceram do contato, mas da repetição.
Explico melhor: uma criança cresce assistindo, na televisão, que o amor verdadeiro envolve sofrimento antes do “felizes para sempre”. Quando essa pessoa encontra um amor em que não há sofrimento, ela pode achar que aquilo não é amor de verdade. Que está faltando alguma coisa. O modelo antecede a experiência.
E aí eu começo a pensar: isso não é só televisão. A televisão foi um caso. Depois veio o computador. Depois a internet. Depois os algoritmos. Agora, a inteligência artificial.
E o padrão parece o mesmo. A tecnologia entra na vida cotidiana com uma força enorme, moldando percepção, linguagem, desejo — mas a educação chega sempre atrasada. Como se ensinar sobre o meio fosse opcional, e não parte da formação básica.
A gente não ensinou a ler televisão. Não ensinou a perceber que enquadramento, montagem, repetição, estereótipo são formas de linguagem, e que linguagem carrega discurso. Depois, não ensinou computação como forma de pensamento, apenas como ferramenta. Não ensinou algoritmo como lógica que organiza o mundo, só como algo técnico, distante. E agora, diante da inteligência artificial, parece que estamos prontos para repetir tudo de novo.
Porque a IA já está produzindo texto, imagem, decisão, sugestão, resposta. Já está ocupando o lugar do “como se faz”, do “como se escreve”, do “como se pensa”. E a pergunta não é se isso é bom ou ruim. A pergunta é: o que acontece quando alguém aprende a imaginar antes de aprender a compreender? Ou ainda: o que acontece quando alguém passa a sentir algo com máquinas antes de viver essas experiências no mundo?
Talvez o risco seja o mesmo que Adorno apontava: não o uso da tecnologia, mas a fixação. A cristalização de formas. A substituição da experiência por modelos. A troca do processo pelo resultado.
E aqui entra um ponto central da educação. Existe hoje um discurso muito forte quando se fala em implementar IA: “precisa acelerar”, “precisa aumentar a eficiência”, “precisa reduzir o tempo gasto”. Mas, quando a gente fala de aprendizado, o tempo gasto é necessário. Os estudantes precisam viver esse tempo. Os erros, as horas, a demora fazem diferença.
Se antes o jovem aprendia o amor pela televisão, agora talvez aprenda o pensamento pela IA — e talvez até o sentimento. Não porque a IA pense ou sinta, mas porque ela entrega formas prontas de pensamento e oferece exatamente aquilo que a pessoa quer sentir. E sem educação crítica, sem alfabetização nesse novo meio, a gente corre o risco de formar sujeitos que operam sistemas sem nunca atravessá-los.
No fundo, a discussão continua sendo sobre emancipação. Sobre formar pessoas capazes de perceber o que as forma. Capazes de olhar para o meio, e não apenas através dele. Capazes de usar a ferramenta sem confundir a ferramenta com o mundo.
Talvez a pergunta que fique não seja “o que a inteligência artificial vai fazer com a educação?”, mas “por que a educação sempre chega depois?”. E se, dessa vez, ainda der tempo de chegar junto.
