Categoria: trabalho

  • Antes do modelo, o dado: a inversão pedagógica no ensino de inteligência artificial

    Um incomodo meu como professora na área da Computação e agora mais recente, ensinando sobre Inteligência Artificial, o de que existe uma sequência que se tornou quase canônica nos cursos do mercado. Basicamente, inicia assim, apresenta-se o problema, carrega-se um dataset, treina-se um modelo, avalia-se a acurácia. O dado aparece sempre como insumo, algo que já está dado, como o próprio nome sugere e o modelo como o objeto de interesse intelectual. Essa inversão tem consequências pedagógicas e epistemológicas que raramente são discutidas e que vou tentar nomeá-las.

    A tese é: quem não aprende a origem de uma solução não consegue reconhecer problemas novos, aprende a executar e não a criar.

    Uma aula sobre MongoDB

    Recentemente, meus estudantes do curso técnico em inteligência artificial estavam aprendendo banco de dados. Seguimos uma sequência deliberada: primeiro modelagem conceitual, depois estrutura relacional em MySQL e só então banco de dados não relacional com MongoDB. Na metade de uma aula sobre MongoDB, a maioria da turma já estava operando com segurança. Mas é claro, e isso não tem nada a ver com o MongoDB ser intuitivo ou bonitinho. É que, uma vez compreendida a rigidez dos bancos relacionais, a flexibilidade do não relacional faz sentido imediato. Os estudantes estavam aprendendo uma nova sintaxe E entendendo por que ela existe.

    Esse “por que da exostência” é muita coisa.

    O MongoDB não surgiu porque alguém quis simplificar a vida dos desenvolvedores. Surgiu porque o modelo relacional, criado para um mundo de dados estruturados e previsíveis, começou a encontrar seus limites diante de volumes massivos, dados heterogêneos e necessidade de escala horizontal. O NoSQL é uma resposta a um problema histórico (um problema sobretudo humano num contexto histórico específico). Quem aprende MongoDB sem ter aprendido SQL não sabe o que o MongoDB resolve e por isso não sabe quando ele é a resposta errada, nem consegue imaginar o que seria necessário quando nenhum dos dois for suficiente.

    Agora, inverta essa sequência, ensine NoSQL primeiro porque “é o mais usado em projetos de IA” e quando esse profissional precisar resolver problemas no futuro onde a solução adequada é um banco relacional você vai ver como será um caminho tortuoso.

    O mesmo problema, em escala maior

    A mesma coisa acontece com toda a área de Inteligência Artificial, uma arquitetura transformer não surgiu do nada. Surgiu das limitações das redes recorrentes para lidar com dependências de longo prazo em sequências. O mecanismo de atenção foi proposto como solução a um problema específico e documentado. O GPT é uma resposta a perguntas que pesquisadores levavam anos tentando responder. Quem aprende a usar modelos pré-treinados sem nenhuma noção de estrutura de dados, sem entender o que é um atributo, o que é uma relação, o que significa representar o mundo em formato tabular ou vetorial é um profissional que opera uma solução sem ter a menor ideia do problema que ela resolve. Uma incapacidade de perceber quando a ferramenta disponível é inadequada para o problema em mãos, e a incapacidade ainda maior de contribuir com o que ainda precisa ser construído.

    Um currículo que pula a fundação para chegar logo aos resultados impressionantes forma, sistematicamente, trabalhadores que sabem criar agentes de IA com ferramentas prontas, mas não conseguem treinar um modelo do zero, questionar a estrutura de um dataset, ou projetar arquiteturas para problemas que ainda não têm solução no mercado. A sequência de aprendizagem define o horizonte do que o profissional consegue imaginar fazer (no presente e no futuro). Se torna um profissional deslumbrado (ou maravilhado) pelas por todas as soluções tecnológicas que vê, entretanto, mesmo formado na área não é capaz de construir suas próprias soluções para problemas semelhantes ou nos quais quer resolver.

    Estrutura como teoria do mundo

    Aprender estrutura de dados não é aprender a programar melhor. É aprender que toda organização de informação implica uma teoria sobre o que existe, o que importa e o que pode ser comparado.

    Quando se define que um campo é do tipo VARCHAR(255), está-se tomando uma decisão sobre o que pode ser dito naquele espaço. Quando se normaliza uma tabela, está-se afirmando algo sobre quais relações são independentes entre si. Quando se escolhe uma chave primária, está-se definindo o que individualize uma entidade no mundo modelado.

    A própria noção de entidade, atributos, relacionamentos pressupõe escolhas de abstração escolhidas por pessoas (sejam as que programa, sejam as que administram o negócio).

    Essas decisões nunca são neutras. O banco de dados de uma clínica que armazena gênero como campo binário não é apenas um banco de dados tecnicamente limitado é um banco de dados que produz invisibilidade de diferentes pessoas. O sistema de avaliação escolar que registra apenas notas numéricas não capta o que não foi previsto como mensurável. A estrutura do dado é sempre uma ontologia operacional e ontologias têm política.

    Álvaro Vieira Pinto (2005), aponta que a alienação tecnológica começa quando o ser humano deixa de reconhecer nos artefatos o produto de suas próprias escolhas históricas. Ensinar estrutura de dados é, nesse sentido, um ato de desfetichização, mostrar que antes do modelo há uma tabela, antes da tabela há um modelo conceitual, antes do modelo conceitual há uma decisão sobre o que conta como real.

    Uma questão curricular com consequências

    O debate sobre o que ensinar primeiro em IA é uma questão sobre que tipo de profissional o mercado e a sociedade vão ter disponível para lidar com sistemas que já organizam crédito, saúde, educação e segurança pública. Ainda há um problema adicional no qual eu gosto de trazer com frequência e que agrava esse quadro: o sequestro da metodologia de projetos.

    A aprendizagem baseada em projetos (Project-Based Learning) tem estrutura definida. Parte de um problema autêntico, exige investigação, envolve colaboração e, sobretudo, requer reflexão contínua sobre o processo. O que uma parcela significativa dos cursos de tecnologia chama de “aprendizagem por projetos” é outra coisa. Entregar um projeto não é trabalhar com PBL. Uma pessoa pode construir um chatbot funcional sem ter passado por nenhuma das etapas que a metodologia pressupõe, sem ter formulado o problema, sem ter investigado alternativas, sem ter refletido sobre o que aprendeu no percurso.

    Essa confusão é bastante propícia nos currículos, ela busca nas teorias educacionais uma maneira de justificar a precarização da formação tecnológica, segue a mesma lógica que atravessa todo este ensaio: tomar o resultado como prova do processo. Assim como ensinar a usar um modelo pré-treinado é tratado como equivalente a ensinar inteligência artificial, entregar um projeto é tratado como equivalente a aprender por projetos. Em ambos os casos, estamos ocultando o percurso (as dores e as delícias do processo de aprender) e é no percurso que está a aprendizagem real.

    Thomas e Mergendoller (2000), ao sistematizar os elementos centrais do PBL fazem a distinção entre um projeto educativo de uma tarefa complexa apontando que é a centralidade da investigação sustentada e da reflexão sobre o processo. Sem isso, o projeto é apenas uma embalagem. E embalagens bonitas criam a aparência de profundidade onde existe apenas superfície.

    A diferença entre quem opera modelos prontos e quem entende a estrutura que os sustenta não é (somente) uma questão de soft skill versus hard skill. É uma questão de posição epistêmica, afinal, quem tem condições de questionar o que foi construído e de construir o que ainda não existe? Currículos que ensinam IA de trás para frente (do resultado para o fundamento, da ferramenta para o problema, do produto para o processo) são pedagogicamente preguiçosos e fazem uma escolha sobre quem vai ter autoridade técnica e intelectual sobre esses sistemas no futuro.

  • New York – Maio, 2026

    New York – Maio, 2026

    Fui para New York no meio de maio como parte de uma missão do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial, realizada no Teachers College da Universidade de Columbia. Eram cinco dias de imersão sobre IA e educação, reunindo pesquisadores, gestores do terceiro setor e professores universitários do Brasil e dos EUA.

    Foto por Erika Fujyama

    O primeiro dia começou com Paulo Blikstein contando a história do Transformative Learning Technologies Lab e apresentando projetos que, entre outras coisas, investigam como a tecnologia pode aprofundar a compreensão sobre o aprendizado humano em vez de simplesmente automatizá-lo. Conhecer um pouco do que o TLTL faz em NY por si só já uma baita experiência. Basicamente são pessoas de formações diversas focados em pensar em propostas significativas e transformadoras de como ensinar. Desde usar softwares, hardwares como a Gogo Board ou mesmo criando e pesquisando sobre o impacto da tecnologia no ensino e no aprendizado.

    No mesmo dia,fomos ao Data Science Institute para uma conversa com Elias Bareinboim sobre causalidade: a diferença entre saber o que está acontecendo e entender por quê.

    Bareinboim dirige o Causal Artificial Intelligence Lab e trabalha com o que chama de Inteligência Artificial Causal, uma distinção que parece puramente técnica, mas tem implicações diretas para quem pensa educação.

    A IA generativa convencional, a dos grandes modelos de linguagem que todo mundo usa hoje, opera na camada da associação. Ela aprende padrões a partir de dados observacionais e replica esses padrões com uma sofisticação impressionante. Mas ela não pergunta por quê. Ela não distingue correlação de causalidade e, por isso, pode ser enganada por relações espúrias nos dados. O exemplo que Bareinboim usou foi a tentativa de tentar envelhecer o rosto de uma mulher em uma foto, um modelo puramente generativo pode inadvertidamente mudar o gênero da pessoa, porque no conjunto de treinamento as duas coisas estavam correlacionadas. O modelo não entende que envelhecer e mudar de gênero são fenômenos independentes.

    A IA Causal propõe ir além disso. Em vez de aprender só o que aconteceu, ela é estruturada para raciocinar sobre o que aconteceria se uma variável fosse alterada, e sobre o que teria acontecido se as condições fossem diferentes. São as camadas da intervenção e do contrafactual: “o que acontece se eu fizer X?” e “o que teria acontecido se eu tivesse agido diferente?” Chegar a essas respostas de forma confiável exige que o modelo incorpore suposições causais explícitas, não apenas ajuste estatístico.

    Para a educação, achei relevante pensar, pois em um sistema que opera apenas por associação pode prever que um estudante vai ter dificuldade. Um sistema causal pode, em tese, inferir a causa dessa dificuldade e propor uma intervenção precisa.

    No segundo dia, Jeremy Roschelle, do Digital Promise, apresentou o percurso de sua organização e durante a discussão ficamos pensando que mesmo com muitas evidências, ainda não existe uma IA capaz de ajudar estudantes a pensar. O que existe são ferramentas que ajudam a chegar a respostas corretas. Não é a mesma coisa. Victor Lee, de Stanford, trouxe dados dos distritos escolares norte-americanos e apresentou o que chamou de Triângulo UDC de Letramento em IA, com três perspectivas que nenhuma escola deveria tratar separadamente: usuário, desenvolvedor e crítico. Rodrigo Duran, da UnB, propôs uma reconfiguração do ensino introdutório de programação em que o ponto de entrada não seja a lógica matemática, mas o processo de identificar e depurar problemas. Os pesquisadores do próprio Observatório também apresentaram seus trabalhos: Geisiele, sobre IA e educação para as relações étnico-raciais; Camila, sobre agência docente diante das plataformas; e Clauirton, sobre a qualidade dos diálogos entre estudantes e sistemas de IA.

    Foto por Erika Fujyama

    O terceiro dia foi de visitas e conversas. Nathan Holbert nos recebeu no Digital Futures Institute e mostrou projetos que colocam estudantes como criadores de IA, não apenas usuários. Carolina Sotério apresentou sua pesquisa sobre aprendizado científico com chatbots de baixo custo que rodam localmente, sem acesso à internet. Adelmo Eloy mostrou o projeto CLIC, que integra computação e currículo sem criar um eixo separado para isso. À tarde, Chris Proctor falou sobre literacia, poder e design educacional; Iryna Lyublinskaya, sobre formação docente e as diferenças culturais que moldam o que se entende por letramento em IA; e Raquel Coelho trouxe a importância do espaço e das instalações nele para argumentar que muitas vezes falamos de de qual tecnologia usar, mas pouco nos preocupamos com que tipo de ambiente queremos construir. Isso conecta muito com nossas experiências na educação infantil, preparamos espaços, cantos, brincadeiras, quando crescemos o espaço passa a ser sempre quadrado, reto, branco etc.

    Foto por Erika Fujyama

    Para além de tudo isso, claro, o que mais me deixou feliz foi ir num encontro falar sobre um dos assuntos que mais amo: EDUCAÇÃO. Isso é importante para mim, pois sou pedagoga (além de Engenheira da Computação) e atuo no ensino de computação e confesso que normalmente as pessoas não querem saber como é estar em sala de aula e ensinar para crianças, adolescentes e adultos. Normalmente as pessoas gostam de FALAR de educação, ninguém quer ouvir educadores, educadores não tem muitas oportunidades de experienciarem diferentes espaços, histórias.

    Estar em outro país, conhecendo o primeiro espaço dedicado a formar professores nos EUA foi incrível demais. Debater sobre IA e Computação com essas pessoas foi uma das experiências mais maneiras que vivi.

    Foto por Erika Fujyama

    Muito obrigada pessoal 🙂

  • Para falar de trabalho com crianças

    Para falar de trabalho com crianças

    Não é de hoje que falamos de trabalho, de mundo do trabalho, de “isso dá trabalho”, de mudança de trabalho, de acabar com trabalhos, de máquinas que substituem trabalhos e muitas outras coisas sobre trabalho.

    Quantas vezes nos propomos a falar de trabalho para e com as crianças? O que as crianças têm a nos dizer sobre o trabalho e a relação da “mudança do trabalho”?

    Me peguei pensando sobre trabalho esses dias, isso não veio do acaso. Li essa habilidade (EF05CO10) Expressar-se crítica e criativamente na compreensão das mudanças tecnológicas no mundo do trabalho e sobre a evolução da sociedade. Ela é da BNCC Computação e tem uma intenção clara e profunda para crianças do 5º ano (aproximadamente 10 anos).

    A primeira coisa que costumo fazer é: quais referências pessoas da educação tem disponíveis sobre esse assunto? E como uma boa curadora de inutilidades fui no YouTube e procurei sobre “história do trabalho”. Tem muita coisa (como é de se esperar nesse grande mundo de vídeos). Pouca ou nenhuma coisa para o público infantil. Achei o vídeo abaixo e gostei como uma introdução ao tema, mas com uma linguagem não tão acessível para crianças brasileiras.

    Depois, fui para a segunda opção, que leva mais tempo, mas que para mim é a mais prazerosa. Encontrar livros que falem sobre “trabalho” para crianças. Fui na Amazon, digitei “trabalho para crianças e apareceu alguns livros, dos que apareceram os que me chamaram atenção:

    1. Doze profissões para o futuro que começou ontem escrito por Anderson Novello e Daniel Cabral;
    2. João procura uma profissão escrito por Jonas Ribeiro e ilustrado por Juliana Basile;
    3. Lico e Leco: profissões de Aino Havukainen e Sami Toivonen e tradução de Pasi e Lilla Loman.

    Tem outros livros que falam de profissões específicas como: engenharia, cientista, arquiteto, astronauta, dentre outros.

    1. Ada Batista, cientista escrito por Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
    2. Sofia Pimenta, futura presidenta escrito por Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
    3. Paulo Roberto, arquiteto Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
    4. Rita Bandeira, engenheira Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
    5. Rita e o manual para ser astronauta escrito por Vinicius Campos e ilustrado por Lila Cruz

    Essa lista não é de maneira nenhuma extensiva. Alguns livros tenho em casa e por isso foram mais fáceis de lembrar, posso estar esquecendo ou desconhecendo algum, mas queria colocar o que fui encontrando.

    Por fim, parti para a busca acadêmica. Afinal, o que os cientistas têm estudado e pesquisado sobre como as crianças pensam, falam, discutem e se preocupam com o trabalho?

    A maioria dos estudos que encontrei em português estavam com foco maior no “trabalho infantil”, questão de tamanha importância para a sociedade toda e os estudos eram da área da saúde, das ciências sociais e da psicologia. Mas que me faria sair um pouco do desafio que me proponho a trazer aqui, que tem caráter pedagógico, de como falar sobre trabalho em sequências didáticas, trabalhos e propostas colaborativas em sala de aula. Por isso, trazendo para o contexto no qual me coloquei a falar e no qual não quero desviar, que é como falar de trabalho e do mundo do trabalho para e com crianças, acho relevante trazer uma síntese (minha) sobre alguns estudos lidos:

    Alguns desses materiais podem ser bons disparadores de conversas sobre trabalho com crianças. Além disso, penso que a melhor maneira de falar de trabalho é falando de trabalhadores. Por isso, não tem como falar de trabalho e educação sem lembrar das reflexões de Célestin Freinet.

    Conheci Freinet na faculdade de Pedagogia, foi de longe a maior transformação na forma como via a educação e o trabalho. Desde L’Éducation du Travail (1949), Freinet compreende o trabalho não como mera preparação para o emprego futuro, mas como o fundamento vital da experiência humana e o eixo organizador da aprendizagem. O trabalho, afirma ele, é “o motor essencial, elemento de progresso e dignidade, símbolo de paz e fraternidade”.

    A noção de educação pelo trabalho não deve se confundir também como uma instrução técnica ou manual. Trata-se de uma pedagogia integral, em que o trabalho adquire sentido formativo, social e ético. O pedagogo propõe o que chama de escola-laboratório, organizada como uma pequena comunidade de produção e pesquisa. As oficinas escolares, a imprensa na sala de aula, o texto livre e a correspondência entre escolas materializam o princípio da cooperação produtiva, no qual o conhecimento é construído coletivamente e devolvido à comunidade, não de maneira abstrata, mas como uma obra útil e socialmente situada. Os estudantes passam a produzir conhecimento para si e para a comunidade, não por que devem SER para o futuro, mas porque já SÃO no presente.

    Diferente do que se imagina, não precisaríamos falar do trabalho para as crianças porque elas viveriam o trabalho. Inclusive para Freinet, os problemas de conduta diminuem na proporção onde o trabalho se torna significativo “a ordem da fábrica em funcionamento substitui a ordem do templo silencioso”. O que emerge é uma ética da responsabilidade compartilhada, a “organização da vida e do trabalho em comum”, em que o grupo regula suas ações a partir da finalidade coletiva da tarefa.

    Ficaria muito tempo falando o quanto uma pedagogia do trabalho pode transformar a maneira como ensinamos e aprendemos, mas sinto que ficaria aqui tempo demasiadamente extenso. E me comprometi com uma coisa.

    Queria só finalizar a fala do pensador francês porque para ele o trabalho é um conceito político e humanista. É o fundamento de uma “educação popular”, voltada à emancipação e a dignidade. O ato de trabalhar, quando vivido em liberdade e solidariedade, torna-se o elo entre os indivíduos e o meio social.

    O ensino sobre e do trabalho

    Quando comecei a escrever este texto, queria falar sobre como é difícil falar de trabalho. Existe pouco material que aborde esse tema para crianças, e ainda que eu acredite profundamente que elas são capazes de compreender muito mais do que geralmente supomos, o fato é que ainda precisamos de materiais pensados para elas, adaptados para o espaço da sala de aula.

    Mas não dá para dissociar as crianças de um assunto que as atravessa o tempo todo, o trabalho está presente no cotidiano delas, nas conversas em casa, nas expectativas que os adultos projetam sobre o futuro (delas) e até nas formas de organização social que determinam o que podem ou não fazer. Elas já estão imersas até a boca nesse mundo do trabalho que tanto tentamos explicar.

    Quando uma criança constrói uma maquete, organiza um jogo, escreve uma história ou planta uma muda, ela já está, de certo modo, trabalhando. Está deixando marcas, atuando sobre a realidade e experimentando a potência de fazer algo existir que antes não existia.

    Falar de trabalho, portanto, é falar de autoria. E essa é uma dimensão que a escola, tantas vezes, esquece de cultivar. Ao insistirmos em tarefas prontas, atividades mecânicas e respostas certas, acabamos por domesticar essa energia vital que o trabalho, no sentido freinetiano, representa. A educação pelo trabalho não se trata de preparar as crianças para o futuro mercado, mas de possibilitar que elas vivam hoje experiências significativas de criação e cooperação, nas quais o aprender e o fazer sejam indissociáveis.

    Quando trazemos esse debate para a infância, abrimos espaço para que as crianças reconheçam os trabalhadores que as cercam, compreendam o valor de cada ofício e, sobretudo, percebam-se como parte ativa dessa grande rede de interdependências que sustenta a vida social.

    Por isso, é urgente criar materiais sobre temas complexos que falem com as crianças, não de maneira infantilizada, mas com contexto, sensibilidade e criticidade. Assim como é papel dos educadores colocar as crianças no papel de sujeitos, e não de meras espectadoras, reconhecendo-as como participantes ativas da sociedade, capazes de questionar, propor e transformar.

    Falar de trabalho com crianças é, afinal, falar sobre o mundo que elas já habitam e sobre o que podem construir a partir dele.


    Referências

    DE CASTRO, Lucia Rabello. Conhecer, transformar (-se) e aprender: pesquisando com crianças e jovens. Pesquisa-intervenção na infância e juventude, p. 21-42, 2008.

    FREINET, Célestin. Por una escuela del pueblo. Tradução de Joseph Alcobé. 2. ed. México: Distribuciones Fontamara, 1994.

    ______________. Education through work: a model for child-centered learning. Tradução de John Sivell. Lewiston, NY: Edwin Mellen Press, 1993.

    ______________. Cooperative learning and social change: selected writings of Célestin Freinet. Edição e tradução de David Clandfield e John Sivell. Toronto: Our Schools/Our Selves; OISE Publishing, 1990.

    NATIVIDADE, Michelle Regina da; COUTINHO, Maria Chalfin. O trabalho na sociedade contemporânea: os sentidos atribuídos pelas crianças. Psicologia & Sociedade, v. 24, p. 430-439, 2012.

    OLIVEIRA, Denize Cristina de et al. Futuro e liberdade: o trabalho e a instituição escolar nas representações sociais de adolescentes. Estudos de Psicologia (Natal), v. 6, p. 245-258, 2001.