Não é de hoje que falamos de trabalho, de mundo do trabalho, de “isso dá trabalho”, de mudança de trabalho, de acabar com trabalhos, de máquinas que substituem trabalhos e muitas outras coisas sobre trabalho.
Quantas vezes nos propomos a falar de trabalho para e com as crianças? O que as crianças têm a nos dizer sobre o trabalho e a relação da “mudança do trabalho”?
Me peguei pensando sobre trabalho esses dias, isso não veio do acaso. Li essa habilidade (EF05CO10) Expressar-se crítica e criativamente na compreensão das mudanças tecnológicas no mundo do trabalho e sobre a evolução da sociedade. Ela é da BNCC Computação e tem uma intenção clara e profunda para crianças do 5º ano (aproximadamente 10 anos).
Como uma criança pode se se expressar criticamente sobre a mudança tecnológica no mundo do trabalho?
A primeira coisa que costumo fazer é: quais referências pessoas da educação tem disponíveis sobre esse assunto? E como uma boa curadora de inutilidades fui no YouTube e procurei sobre “história do trabalho”. Tem muita coisa (como é de se esperar nesse grande mundo de vídeos). Pouca ou nenhuma coisa para o público infantil. Achei o vídeo abaixo e gostei como uma introdução ao tema, mas com uma linguagem não tão acessível para crianças brasileiras.
Depois, fui para a segunda opção, que leva mais tempo, mas que para mim é a mais prazerosa. Encontrar livros que falem sobre “trabalho” para crianças. Fui na Amazon, digitei “trabalho para crianças e apareceu alguns livros, dos que apareceram os que me chamaram atenção:
- Doze profissões para o futuro que começou ontem escrito por Anderson Novello e Daniel Cabral;
- João procura uma profissão escrito por Jonas Ribeiro e ilustrado por Juliana Basile;
- Lico e Leco: profissões de Aino Havukainen e Sami Toivonen e tradução de Pasi e Lilla Loman.



Tem outros livros que falam de profissões específicas como: engenharia, cientista, arquiteto, astronauta, dentre outros.
- Ada Batista, cientista escrito por Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
- Sofia Pimenta, futura presidenta escrito por Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
- Paulo Roberto, arquiteto Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
- Rita Bandeira, engenheira Andrea Beaty e ilustrado por David Roberts
- Rita e o manual para ser astronauta escrito por Vinicius Campos e ilustrado por Lila Cruz





Essa lista não é de maneira nenhuma extensiva. Alguns livros tenho em casa e por isso foram mais fáceis de lembrar, posso estar esquecendo ou desconhecendo algum, mas queria colocar o que fui encontrando.
Por fim, parti para a busca acadêmica. Afinal, o que os cientistas têm estudado e pesquisado sobre como as crianças pensam, falam, discutem e se preocupam com o trabalho?
A maioria dos estudos que encontrei em português estavam com foco maior no “trabalho infantil”, questão de tamanha importância para a sociedade toda e os estudos eram da área da saúde, das ciências sociais e da psicologia. Mas que me faria sair um pouco do desafio que me proponho a trazer aqui, que tem caráter pedagógico, de como falar sobre trabalho em sequências didáticas, trabalhos e propostas colaborativas em sala de aula. Por isso, trazendo para o contexto no qual me coloquei a falar e no qual não quero desviar, que é como falar de trabalho e do mundo do trabalho para e com crianças, acho relevante trazer uma síntese (minha) sobre alguns estudos lidos:
Para conduzir um diálogo transformador sobre o trabalho, é fundamental adotar uma postura que reconheça as crianças e adolescentes como sujeitos ativos, capazes de produzir sentidos para suas experiências e de serem atores sociais competentes. As metodologias usadas nos estudos analisados foram de Grupo de Discussão ou Grupo de Reflexão e se destacam por criar espaços de fala e intercâmbio. Nesses espaços, o pesquisador atua como parceiro, e a conversa é um dispositivo que permite aos participantes construir outros sentidos para suas experiências individuais, promovendo a reflexão, o questionamento e o surgimento de múltiplos sentidos. O objetivo é ir além do discurso superficial, que tende a reproduzir a lógica capitalista de produtividade e consumo. Ao proporcionar um diálogo sobre o trabalho, o adulto, que atua como mediador, pode enriquecer a experiência das crianças e adolescentes, auxiliando-os a desenvolver uma representação mais objetiva e crítica do mundo do trabalho, e a resgatar o trabalho como uma condição de humanização e uma relação de dupla transformação entre o homem e a natureza, em vez de ser visto apenas pelo seu lado instrumental.
Alguns desses materiais podem ser bons disparadores de conversas sobre trabalho com crianças. Além disso, penso que a melhor maneira de falar de trabalho é falando de trabalhadores. Por isso, não tem como falar de trabalho e educação sem lembrar das reflexões de Célestin Freinet.
Conheci Freinet na faculdade de Pedagogia, foi de longe a maior transformação na forma como via a educação e o trabalho. Desde L’Éducation du Travail (1949), Freinet compreende o trabalho não como mera preparação para o emprego futuro, mas como o fundamento vital da experiência humana e o eixo organizador da aprendizagem. O trabalho, afirma ele, é “o motor essencial, elemento de progresso e dignidade, símbolo de paz e fraternidade”.
É por meio do trabalho que o pensamento se forma e se humaniza; é nele que a criança descobre a potência de agir sobre o mundo e de transformar a si mesma.
A noção de educação pelo trabalho não deve se confundir também como uma instrução técnica ou manual. Trata-se de uma pedagogia integral, em que o trabalho adquire sentido formativo, social e ético. O pedagogo propõe o que chama de escola-laboratório, organizada como uma pequena comunidade de produção e pesquisa. As oficinas escolares, a imprensa na sala de aula, o texto livre e a correspondência entre escolas materializam o princípio da cooperação produtiva, no qual o conhecimento é construído coletivamente e devolvido à comunidade, não de maneira abstrata, mas como uma obra útil e socialmente situada. Os estudantes passam a produzir conhecimento para si e para a comunidade, não por que devem SER para o futuro, mas porque já SÃO no presente.
Diferente do que se imagina, não precisaríamos falar do trabalho para as crianças porque elas viveriam o trabalho. Inclusive para Freinet, os problemas de conduta diminuem na proporção onde o trabalho se torna significativo “a ordem da fábrica em funcionamento substitui a ordem do templo silencioso”. O que emerge é uma ética da responsabilidade compartilhada, a “organização da vida e do trabalho em comum”, em que o grupo regula suas ações a partir da finalidade coletiva da tarefa.
Ficaria muito tempo falando o quanto uma pedagogia do trabalho pode transformar a maneira como ensinamos e aprendemos, mas sinto que ficaria aqui tempo demasiadamente extenso. E me comprometi com uma coisa.
Queria só finalizar a fala do pensador francês porque para ele o trabalho é um conceito político e humanista. É o fundamento de uma “educação popular”, voltada à emancipação e a dignidade. O ato de trabalhar, quando vivido em liberdade e solidariedade, torna-se o elo entre os indivíduos e o meio social.
O ensino sobre e do trabalho
Quando comecei a escrever este texto, queria falar sobre como é difícil falar de trabalho. Existe pouco material que aborde esse tema para crianças, e ainda que eu acredite profundamente que elas são capazes de compreender muito mais do que geralmente supomos, o fato é que ainda precisamos de materiais pensados para elas, adaptados para o espaço da sala de aula.
Mas não dá para dissociar as crianças de um assunto que as atravessa o tempo todo, o trabalho está presente no cotidiano delas, nas conversas em casa, nas expectativas que os adultos projetam sobre o futuro (delas) e até nas formas de organização social que determinam o que podem ou não fazer. Elas já estão imersas até a boca nesse mundo do trabalho que tanto tentamos explicar.
Quando uma criança constrói uma maquete, organiza um jogo, escreve uma história ou planta uma muda, ela já está, de certo modo, trabalhando. Está deixando marcas, atuando sobre a realidade e experimentando a potência de fazer algo existir que antes não existia.
Falar de trabalho, portanto, é falar de autoria. E essa é uma dimensão que a escola, tantas vezes, esquece de cultivar. Ao insistirmos em tarefas prontas, atividades mecânicas e respostas certas, acabamos por domesticar essa energia vital que o trabalho, no sentido freinetiano, representa. A educação pelo trabalho não se trata de preparar as crianças para o futuro mercado, mas de possibilitar que elas vivam hoje experiências significativas de criação e cooperação, nas quais o aprender e o fazer sejam indissociáveis.
Quando trazemos esse debate para a infância, abrimos espaço para que as crianças reconheçam os trabalhadores que as cercam, compreendam o valor de cada ofício e, sobretudo, percebam-se como parte ativa dessa grande rede de interdependências que sustenta a vida social.
Por isso, é urgente criar materiais sobre temas complexos que falem com as crianças, não de maneira infantilizada, mas com contexto, sensibilidade e criticidade. Assim como é papel dos educadores colocar as crianças no papel de sujeitos, e não de meras espectadoras, reconhecendo-as como participantes ativas da sociedade, capazes de questionar, propor e transformar.
Falar de trabalho com crianças é, afinal, falar sobre o mundo que elas já habitam e sobre o que podem construir a partir dele.
Referências
DE CASTRO, Lucia Rabello. Conhecer, transformar (-se) e aprender: pesquisando com crianças e jovens. Pesquisa-intervenção na infância e juventude, p. 21-42, 2008.
FREINET, Célestin. Por una escuela del pueblo. Tradução de Joseph Alcobé. 2. ed. México: Distribuciones Fontamara, 1994.
______________. Education through work: a model for child-centered learning. Tradução de John Sivell. Lewiston, NY: Edwin Mellen Press, 1993.
______________. Cooperative learning and social change: selected writings of Célestin Freinet. Edição e tradução de David Clandfield e John Sivell. Toronto: Our Schools/Our Selves; OISE Publishing, 1990.
NATIVIDADE, Michelle Regina da; COUTINHO, Maria Chalfin. O trabalho na sociedade contemporânea: os sentidos atribuídos pelas crianças. Psicologia & Sociedade, v. 24, p. 430-439, 2012.
OLIVEIRA, Denize Cristina de et al. Futuro e liberdade: o trabalho e a instituição escolar nas representações sociais de adolescentes. Estudos de Psicologia (Natal), v. 6, p. 245-258, 2001.
