Há anos ouvimos que “o futuro é tech”, que quem não souber programar vai ficar para trás, agora ainda mais “que a IA vai eliminar tudo”. Essa narrativa chegou antes de qualquer política pública (como sempre), antes de qualquer currículo reformulado, antes de qualquer dado longitudinal que confirmasse o que ela afirma com tanta certeza.
E ela chegou especialmente forte para jovens que ainda estão decidindo o que fazer da vida. A imagem que escolhi para acompanhar esse texto é uma aquarela de mãos tricotando figuras humanas. Quem está costurando as escolhas dos jovens? Quem define quais fios são válidos e quais devem ser descartados? Quem define o resultado desse grande emaranhado de vidas?
Recentemente vi um relatório da Gallup-Lumina que descreve a relação dos estudantes com a Inteligência Artificial. Achei interessante que eles trouxeram que quase metade dos estudantes universitários americanos já considerou mudar de curso por causa da IA. 16% já mudaram de fato. O que me vem na cabeça é uma geração inteira sendo convencida de que certas escolhas profissionais têm futuro e outras não. Isso sempre aconteceu, claro. Mas quem ganha quando todo mundo quer fazer IA? Quando todo mundo quer ir para áreas de tecnologia?
Todo mundo quer fazer curso de IA. Todo mundo quer trabalhar com dados. Muita gente vem me contar animada que vai prestar vestibular para alguma coisa ligada à inteligência artificial. E eu fico pensando quantas dessas pessoas sabem que vão encontrar um mundaréu de matemática? O Brasil tem um dos piores índices de aprendizagem matemática do mundo.
Mas além disso, a corrida para a área está produzindo algo esquisito demais, uma geração de usuários de IA que não sabem o que estão usando. Que saíram de um cursinho online de orquestração de agentes sem nunca ter entendido estrutura de dados, algoritmo, as bases do que uma ferramenta faz quando você aperta o botão. Na primeira crise do setor, serão os primeiros a ser descartados. Porque quem só sabe usar uma ferramenta depende inteiramente da ferramenta continuar existindo e acessível do jeito que está.
Longe de mim não querer mais pessoas na computação. Quero muito. Mas não pelo caminho que estamos seguindo.
E quero também o movimento inverso, precisamos de filósofos, psicólogos, biólogos, educadores que entendam IA dentro das suas próprias áreas, que dialoguem com a computação e ajudem a construir uma tecnologia que tenha como princípio manter seres vivos vivos. Precisamos de pessoas da computação que consigam conversar com essas áreas. O que está acontecendo é que estamos transformando todo mundo em analista de dados e engenheiro de IA e chamando isso de interdisciplinaridade.