Este ano eu comecei, de verdade, a me candidatar para o mestrado.
Já vinha adiando essa decisão há um bom tempo e o empurrão final veio de uma mistura de cansaço de procrastinar com aquela velha pergunta incômoda sobre se não for agora, vai ser quando?
Entrar num mestrado é um processo que exige fôlego. A dedicação de tempo e energia é imensa e o retorno financeiro imediato é baixo ou inexistente. Por isso, para quem não tem uma rede financeira de herdeiro, o primeiro passo prático é reorganizar a vida material para fazer o mestrado caber na rotina. E convenhamos que isso, por si só, já é um malabarismo. Nos últimos dois anos, venho moldando a minha carreira justamente para viabilizar esse projeto. Hoje, meu trabalho busca principalmente a flexibilidade para abarcar aulas no período da tarde, que por incrível que pareça é o momento em que a maioria das disciplinas de pós-graduação costuma acontecer.
A outra etapa complexa dessa jornada é a escolha da linha de pesquisa. Sou uma pessoa multifacetada e apaixonada por diferentes áreas. Sem exagero, cheguei a rascunhar mais de dez pré-projetos com temáticas completamente distintas e, honestamente, passaria anos estudando com entusiasmo qualquer um deles. Some a isso uma formação em duas áreas distintas e a dúvida diária passa a ser o que escolher no meio de tudo isso.
Não é bem aquela indecisão de quem não sabe o que quer, é quase o oposto. É enxergar pontes e relações onde a estrutura dos programas de pós-graduação muitas vezes não foi desenhada para reconhecer conexão alguma.
As linhas de pesquisa existem organizadas por departamentos, programas e áreas de avaliação da CAPES, não necessariamente porque o mundo real dos problemas educacionais e computacionais venha naturalmente dividido em duas caixas. Um professor lidando com IA generativa em sala de aula está, ao mesmo tempo, diante de um desafio pedagógico e de um problema computacional. Ainda assim, a estrutura acadêmica exige que você escolha um departamento para fazer essa pergunta, mesmo quando a pergunta não nasceu dividida.
Passei um tempo tentando resolver isso procurando o programa perfeito que acolhesse as minhas duas metades de primeira. Acontece que programas assim são raros e esperar pelo encaixe ideal é um jeito muito confortável de continuar adiando a inscrição por mais um ano.
Então mudei de critério. Em vez de buscar um programa formalmente interdisciplinar, passei a procurar a pessoa orientadora certa, alguém disposto a deixar a pesquisa puxar fios da outra área mesmo estando formalmente em um único departamento.
Essa estratégia de buscar pessoas em vez de focar apenas em programas vem fazendo a diferença. O processo ganha rosto, afinidade e diálogo com pessoas e não mais com um objeto inanimado chamado “programa”. Paralelamente, comecei a cursar disciplinas como aluna especial, o que tem sido excelente para sentir a dinâmica dos laboratórios, embora também pese no bolso (sim, em vários programas públicos paga-se taxa de inscrição até para ser aluno especial!).
Algumas coisas vêm dando certo, outras nem tanto. O objetivo deste espaço é ir registrando um pouco desse percurso, com os bastidores, as dúvidas e os aprendizados do caminho.
