Sou uma pessoa extremamente sistemática. No dia a dia, isso é a minha maior fortaleza: ter rotinas, categorias mentais bem desenhadas e uma certa obsessão por método é, literalmente, o que me salva de pirar completamente no meio do caos contemporâneo. Por outro lado, essa mesma características me rende, de tempos em tempos, a fama de insensível. Não acho que eu seja (pelo menos tento não ser), mas compreendo o estranhamento, quando o mundo ao redor parece desabar em comoção coletiva, a minha tendência é fechar as janelas de ruído e continuar organizando o meu metro quadrado.
Essa diferença de temperamento ficou evidente aqui em casa nas últimas semanas. Diante dos anúncios recentes sobre modelos de fronteira que supostamente “resolveram” problemas matemáticos complexos e ameaçam a última fronteira do raciocínio formal, meu marido entrou em completo desalento. Ele cursou matemática, é apaixonado pela área e, embora seja absolutamente low profile, é uma das pessoas mais antenadas que conheço. Para quem ama a elegância de uma demonstração, a arquitetura interna de um teorema e a lentidão fecunda do raciocínio humano, a fanfarra ruidosa dessas divulgações soou como um ultraje. Não apenas pelo anúncio em si, mas pela postura quase fúnebre com que o debate público passou a tratar o intelecto humano, como se pensar tivesse virado uma perda de tempo ineficiente.
O ponto é que, embora eu publique com frequência por aqui, eu não acompanho as fofocas diárias do ecossistema de inteligência artificial. Muito menos tenho paciência para a narrativa messiânica que os grandes sacerdotes do Vale do Silício insistem em vender a cada ciclo de venture capital. Simplesmente não me interessa. Não há nada nessa encenação que me pegue de surpresa, gente é a velha ideologia do Tecnopositivismo requentada, que confunde poder de cálculo estatístico com inteligência, reduz o conhecimento a um gargalo produtivo e tenta nos convencer de que qualquer atividade que não gere valor transacional imediato deveria ser automatizada ontem.
Essa minha teimosia sistemática funciona como um filtro para proteger os meus próprios interesses intelectuais. Na semana passada, enquanto meu marido suspirava angustiado a cada nova conversa (“mas para que insistir nisso, se a IA vai fazer tudo? Até a matemática já foi invadida por ela”), a minha resposta íntima era uma só: tô nem aí.
Enquanto a comoção apocalíptica corria solta, me matriculei em uma disciplina de redes de computadores em um curso de pós-graduação. Sim, redes. Voltei para os fundamentos. Se você perguntar para qualquer profeta do linkedIn ou para os grandes arautos corporativos, eles dirão que estudar redes de computadores hoje é um anacronismo delirante. Dirão que a nuvem abstraiu tudo, que sistemas autônomos gerenciam o tráfego, que modelos generativos configuram topologias inteiras e que “ninguém mais precisa aprender como os bits viajam pelo cabo”. Blablabla.
Na minha época de faculdade, a turma olhava torto para redes. Havia um bode coletivo que tratava a disciplina como mero trabalho braçal de infraestrutura, encanamento digital desprovido de glamour quando comparado à nobreza do desenvolvimento de software e das abstrações lógicas puras. Eu mesma só fui morder a isca no último ano de graduação. E agora, revisitando manuais clássicos como o de Andrew Tanenbaum, me pego completamente vidrada no assunto.
Há uma beleza em entender como a física imperfeita do mundo real, com seus ruídos térmicos, oscilações de voltagem e limitações de frequência, precisa ser domada por algoritmos de enquadramento; ver o engenho que existe em injetar um bit zero a cada cinco uns para que o receptor não perca o sincronismo de relógio; dissecar a álgebra modesta de um polinômio gerador que garante a integridade de um pacote através de uma simples divisão de CRC. Estudar isso exige lápis, papel, tempo, cálculo manual e silêncio. Exige compreender como as máquinas operam antes de termos a petulância de terceirizar o pensamento para elas.
É aí que se revela a tremenda perversidade da promessa que os donos da tecnologia estão nos fazendo. O que as grandes corporações de IA pretendem, no fundo, é nos dispensar da fadiga do conhecimento. Elas nos dizem: “não perca tempo entendendo o mecanismo, não gaste energia com a teoria, não queime neurônios compreendendo como as coisas funcionam por baixo do capô; nós cuidamos da cognição, vocês apenas operam as alavancas”. O projeto não é nos emancipar do trabalho enfadonho, mas nos converter em meros instrumentos de ação, operadores de prompt dóceis e desprovidos de fundamento conceitual, incapazes de julgar, auditar ou questionar o que o algoritmo cospe na tela. Como lembrava Álvaro Vieira Pinto ao analisar a ideologia da técnica, a máquina nunca decide nada sobre problemas vitais; quem decide são os interesses sociais por trás dela. E quando abrimos mão da capacidade de abstrair e de construir o raciocínio pelas próprias mãos, deixamos de ser sujeitos para virar apêndices do maquinário.
Essa exigência de utilidade perpétua e de agilidade operacional é a morte do próprio pensar. Em sua defesa da vida contemplativa, Byung-Chul HAN pontua que o pensamento genuíno brota da demora, da vulnerabilidade e da capacidade soberana de fazer algo que não sirva para a engrenagem do rendimento imediato. A máquina não conhece essa demora; ela só conhece os estados de ligada e desligada, presa à aceleração do cálculo. Quando decidimos estudar algo simplesmente porque queremos entender a arquitetura do mundo e não porque isso virará uma skill vendável no próximo trimestre, estamos resgatando a nossa própria humanidade contra a estupidez mecânica da produtividade cega.
Por isso, faço questão de insistir no que eles chamam de inútil. Quero gastar o meu tempo pensando. Quero estudar temas batidos, conceitos clássicos que todo mundo jura que já sabe (mas que quase ninguém entende de verdade quando a tela preta do terminal pisca). Quero a delícia lenta de fazer conta no papel, de rastrear cabeçalhos de enlace bit a bit e de insistir no esforço manual do raciocínio.
O mundo da tecnologia pode continuar surtando com o próximo benchmark financiado pelo capital de risco e decretando a morte de mais uma faculdade humana a cada trimestre. Eu prefiro continuar abrindo meus livros, ligando meus fios conceituais e gastando horas para compreender como os dados atravessam o canal.
Estou nem aí.
