Categoria: mestrado

  • Isso aqui está muito bom?

    Comecei a cursar uma disciplina de cibersegurança como aluna especial e logo nas primeiras aulas to vivêndo uma experiência quase antropológica. Vou explicar, a turma reúne tanto graduação quanto pós, o que significa que estou rodeada por uma maioria de estudantes muito jovens, gente que provavelmente nunca nem viu a interface do Orkut (sim um estudante que também deu uma aula falou que nunca viu o Orkut).

    O cenário da sala é uma experiência à parte. Quase ninguém usa caderno físico, não há computadores da faculdade na bancada e o que domina o espaço são mesas sem absolutamente nada, sem caderno, algumas poucas telas de notebook ligadas em coisas completamente aleatórias. Tem gente jogando, trabalhando, fazendo pesquisas aleatórias e respondendo mensagens. O que mais me chamou a atenção é o silêncio e a ausência absoluta de reações.

    Minha cabeça fica alternando o tempo todo entre “caralho, que assunto legal” e “caralho, só eu estou achando isso legal?”. As pessoas não interagem, não comentam e não esboçam expressão. Não há uma risadinha de canto de boca, um “uau”, um suspiro ou um “até parece”. Nada, nadica de nada.

    Por um lado, isso permite que professores e convidados falem sem nenhuma interrupção. Por outro, é um pouco melancólico e constrangedor ver alguém lá na frente pedindo uma resposta, quase implorando por qualquer sinal de vida da turma e receber em troca apenas o eco da sala.

    Nesses momentos, quando tomo coragem para comentar ou responder algo, me sinto a criatura mais esquisita do planeta. A impressão é de que estou quebrando um contrato social tácito estabelecido pela turma, um pacto invisível cuja primeira regra parece ser manter a apatia coletiva a qualquer custo.

    Para completar, minha experiência prévia dando aulas não me deixa desligar o olhar analítico. Fico reparando no ritmo da apresentação, nas pausas do professor, nas tentativas de engajamento e nas nuances da didática. É como viver um experimento social duplo, aprendendo cibersegurança em plena era de inteligência artificial enquanto analiso o comportamento da própria sala.

    E claro, não poderia me esquecer, há os velhos clássicos acadêmicos que parecem imutáveis, como o ritual sagrado da lista de chamada. Eu já tinha até esquecido a coreografia de assinar o papel, esperar alguns minutos protocolares e sumir silenciosamente pela porta.

    No fim das contas, a experiência tem sido maravilhosa e dúbia. Estou adorando aprender coisas novas e me sinto genuinamente empolgada com a matéria, mesmo tendo que aceitar o papel de ser a aluna deslocada que insiste em quebrar o silêncio da turma hihi.

  • Millennials voltando para sala de aula 2026

    Este ano eu comecei, de verdade, a me candidatar para o mestrado.

    Já vinha adiando essa decisão há um bom tempo e o empurrão final veio de uma mistura de cansaço de procrastinar com aquela velha pergunta incômoda sobre se não for agora, vai ser quando?

    Entrar num mestrado é um processo que exige fôlego. A dedicação de tempo e energia é imensa e o retorno financeiro imediato é baixo ou inexistente. Por isso, para quem não tem uma rede financeira de herdeiro, o primeiro passo prático é reorganizar a vida material para fazer o mestrado caber na rotina. E convenhamos que isso, por si só, já é um malabarismo. Nos últimos dois anos, venho moldando a minha carreira justamente para viabilizar esse projeto. Hoje, meu trabalho busca principalmente a flexibilidade para abarcar aulas no período da tarde, que por incrível que pareça é o momento em que a maioria das disciplinas de pós-graduação costuma acontecer.

    A outra etapa complexa dessa jornada é a escolha da linha de pesquisa. Sou uma pessoa multifacetada e apaixonada por diferentes áreas. Sem exagero, cheguei a rascunhar mais de dez pré-projetos com temáticas completamente distintas e, honestamente, passaria anos estudando com entusiasmo qualquer um deles. Some a isso uma formação em duas áreas distintas e a dúvida diária passa a ser o que escolher no meio de tudo isso.

    Não é bem aquela indecisão de quem não sabe o que quer, é quase o oposto. É enxergar pontes e relações onde a estrutura dos programas de pós-graduação muitas vezes não foi desenhada para reconhecer conexão alguma.

    As linhas de pesquisa existem organizadas por departamentos, programas e áreas de avaliação da CAPES, não necessariamente porque o mundo real dos problemas educacionais e computacionais venha naturalmente dividido em duas caixas. Um professor lidando com IA generativa em sala de aula está, ao mesmo tempo, diante de um desafio pedagógico e de um problema computacional. Ainda assim, a estrutura acadêmica exige que você escolha um departamento para fazer essa pergunta, mesmo quando a pergunta não nasceu dividida.

    Passei um tempo tentando resolver isso procurando o programa perfeito que acolhesse as minhas duas metades de primeira. Acontece que programas assim são raros e esperar pelo encaixe ideal é um jeito muito confortável de continuar adiando a inscrição por mais um ano.

    Então mudei de critério. Em vez de buscar um programa formalmente interdisciplinar, passei a procurar a pessoa orientadora certa, alguém disposto a deixar a pesquisa puxar fios da outra área mesmo estando formalmente em um único departamento.

    Essa estratégia de buscar pessoas em vez de focar apenas em programas vem fazendo a diferença. O processo ganha rosto, afinidade e diálogo com pessoas e não mais com um objeto inanimado chamado “programa”. Paralelamente, comecei a cursar disciplinas como aluna especial, o que tem sido excelente para sentir a dinâmica dos laboratórios, embora também pese no bolso (sim, em vários programas públicos paga-se taxa de inscrição até para ser aluno especial!).

    Algumas coisas vêm dando certo, outras nem tanto. O objetivo deste espaço é ir registrando um pouco desse percurso, com os bastidores, as dúvidas e os aprendizados do caminho.