Comecei a cursar uma disciplina de cibersegurança como aluna especial e logo nas primeiras aulas to vivêndo uma experiência quase antropológica. Vou explicar, a turma reúne tanto graduação quanto pós, o que significa que estou rodeada por uma maioria de estudantes muito jovens, gente que provavelmente nunca nem viu a interface do Orkut (sim um estudante que também deu uma aula falou que nunca viu o Orkut).
O cenário da sala é uma experiência à parte. Quase ninguém usa caderno físico, não há computadores da faculdade na bancada e o que domina o espaço são mesas sem absolutamente nada, sem caderno, algumas poucas telas de notebook ligadas em coisas completamente aleatórias. Tem gente jogando, trabalhando, fazendo pesquisas aleatórias e respondendo mensagens. O que mais me chamou a atenção é o silêncio e a ausência absoluta de reações.
Minha cabeça fica alternando o tempo todo entre “caralho, que assunto legal” e “caralho, só eu estou achando isso legal?”. As pessoas não interagem, não comentam e não esboçam expressão. Não há uma risadinha de canto de boca, um “uau”, um suspiro ou um “até parece”. Nada, nadica de nada.
Por um lado, isso permite que professores e convidados falem sem nenhuma interrupção. Por outro, é um pouco melancólico e constrangedor ver alguém lá na frente pedindo uma resposta, quase implorando por qualquer sinal de vida da turma e receber em troca apenas o eco da sala.
Nesses momentos, quando tomo coragem para comentar ou responder algo, me sinto a criatura mais esquisita do planeta. A impressão é de que estou quebrando um contrato social tácito estabelecido pela turma, um pacto invisível cuja primeira regra parece ser manter a apatia coletiva a qualquer custo.
Para completar, minha experiência prévia dando aulas não me deixa desligar o olhar analítico. Fico reparando no ritmo da apresentação, nas pausas do professor, nas tentativas de engajamento e nas nuances da didática. É como viver um experimento social duplo, aprendendo cibersegurança em plena era de inteligência artificial enquanto analiso o comportamento da própria sala.
E claro, não poderia me esquecer, há os velhos clássicos acadêmicos que parecem imutáveis, como o ritual sagrado da lista de chamada. Eu já tinha até esquecido a coreografia de assinar o papel, esperar alguns minutos protocolares e sumir silenciosamente pela porta.
No fim das contas, a experiência tem sido maravilhosa e dúbia. Estou adorando aprender coisas novas e me sinto genuinamente empolgada com a matéria, mesmo tendo que aceitar o papel de ser a aluna deslocada que insiste em quebrar o silêncio da turma hihi.